segunda-feira, 1 de março de 2010

«sou menino, mas o meu QI é maior que o teu...»

boy listens to the fish, ernst landgrebe

«Estudo associa infidelidade masculina a QI mais baixo»
in i,www.ionline.pt/conteudo/49089-estudo-associa-infidelidade-masculina-qi-mais-baixo

«lover put me in your beautiful bed...and cover me...»

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

«quaresma»


a cross, pawel sawicki

«amo-te. daqui até a lua mas pelo caminho mais longo»


sem titulo, john withem

«livre arbítrio»


moslim funeral, geert vanden wijngaert

;)

«e agora só me sai...»

Raquel

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.


Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;


Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Camões

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

«you´re my heart, you´re my soul»


soul man, john crosley

nota: espécie de réplica, à brilhante resposta ao post: «we are the pretty petty thieves»

«rebelde»


friday prayers in islamabad, b.k. bangash

«gosto do contraste das nossas peles»


holding on the dreams, raphael lopez

«frutos vermelhos»



Now the sky could be blue could be grey
Without you I’m just miles away
Oh the sky could be blue I don't mind
Without you it’s a waste of time

«para parares de me chatear... :)»

«...e alguém escreveu o teu nome em toda a parte:nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas...e até em caixotes de bananas...»



(nota:ignore-se a qualidade dos pixeis, ignore-se o espaço envolvente. e realce-se:«agora só me sai raquel».grato.)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

«we are the pretty petty thieves».

Sei que as mulheres que nos amam não nos amam de maneira diferente, mas, como nunca se sabe, deixei-as de fora, falando apenas pelo meu género: a malta.

Minha amada querida. O meu pai, logo depois de se ter apaixonado pela minha mãe, disse-lhe, em pleno namoro (ela uma mulher inglesa casada, com uma filha pequena; ele um solteirão português): "Se soubesses quanto eu te amava; destruías-me já." E disse a verdade. Era tanto o amor e o ciúme que lhe tinha, que fez mal à mulher que amava, minha mãe, e mal ao homem que a amava; ele próprio; meu pai.

O amor é um castigo; é um desespero; é um medo. O amor vai contra todos os nossos instintos de sobrevivência. Instiga-nos a cometer loucuras. Instiga-nos a comprometermo-nos. Obriga-nos a cumprir promessas que não somos capazes de cumprir. Mas cumprimos.

Eu amo-te. E não me custa. É um acto de egoísmo. Mesmo que tu me odiasses mas te odiasses tanto a ti própria que não te importasses de ficar comigo, eu seria feliz e agradeceria a Deus a tua inconsciência; a tua generosidade; qualquer estupidez ou inteligência que te mantivesse perto de mim.

A sorte não é amar-te nem tu me amares. A sorte é ter-te ao pé de mim. Tu podes estar enganada. Deves estar enganada. Mas ninguém neste mundo, por pouco que me ame ou muito que te ame, está mais certa para mim.

Obrigado.


mec, in publico, 14 fevereiro de 2010.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

«...sonhei tanto a tua figura/que é de olhos fechados que eu ando...»


Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny, in "Pena Capital"

«...um para o outro/vividos»



Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny, in "Pena Capital"

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

«onde quer que habites, PARABÉNS»


sem titulo, 1998, joao francisco vilhena

to: avó emilia

«e a marinha grande sr. mario, e a marinha grande?»


amnezia, budapest, suzi mcgregor

Mário Soares garante "nunca fui tão atacado como José Sócrates"
in i

«entretanto à porta da procuradoria as senhoras aguardavam ansiosamente mais uma piada do sr. monteiro»


would you believe, avia



O procurador-geral da República (PGR) considerou hoje que "não há nenhum indício que mostre que exista um plano do primeiro ministro para controlar a imprensa" nas escutas telefónicas do processo Face Oculta em que José Sócrates aparece a falar e que foram declaradas "nulas e sem nenhum valor".
http://www.ionline.pt/c46054

«vamos fazer com que o tempo pare»


against time, raphael lopez

«temos o mar...temos a pauta..canta menina..que eu fico eternamente a ouvir-te»

«acerta o meu passo pelo teu»

«coisas pequenas»

"Coisas pequenas são
coisas pequenas
são tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são
coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar.

Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.

E a hora
que te espreita
é só tua.
Decerto, nao será
só a que resta;
a hora
que esperei a vida toda,
é esta.

E a hora
que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.
A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora."

sábado, 6 de fevereiro de 2010

...

«You Are the Light (by which I travel into this and that) »

«would you grow older with me?»


s titulo, venislav georgiev

«are you talking to me?»



An Afghan villager looked through a gun while a US Army soldier patrolled Afghanistan on Monday,The Wall Street Journal

«origamizado»


nottingham, on the street xxxi, oskar papierz

«lá está..... mais tarde ou mais cedo um origami toca a todos...esta é a minha teoria»

«supreendente?não...está-lhes no sangue...»



O Big Brother fiscal

Um novo projecto de lei que o PS tenciona apresentar na Assembleia da República pretende colocar na Internet todos os rendimentos brutos declarados pelos contribuintes, avança o Diário de Notícias.
Depois de o governo ter disponibilizado online a lista dos maiores devedores ao fisco, o próximo passo é colocar a identificação do contribuinte juntamente com o rendimento bruto anual declarado.


in i

«ficas linda de collants»



ana rito, s/ título, 2006

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

«joão pestana em cor de rosa»

«brevemente de volta»



menina..vens comigo ver disto?paris? se for preciso...contigo?obrigatoriamente.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

domingo, 31 de janeiro de 2010

«rivers of love»



This night
I awoke
Out from dreams
Of tall cascading fontains
Of love
I'm floating like a dove
Covered from above
With fountains of love

And you
Fly with me
Through a scene
Of deep caressing rivers
Of love
Soft as a dove
It's you i'm dreaming of
With rivers of love

Flowing from above
Knowing only of
Rivers of love

«carreira 28»


fio, lisboa 2010

leva-nos ao panteão. e à basilica da estrela. e lá vai sentada uma senhora que conhece lisboa. e em pé vão senhores..assim...escuros.... e vamos nós. e tudo é luz. e tudo és tu.

domingo, 24 de janeiro de 2010

«passeio :)»

«esta cidade tem tanta luz.é tao clarinha»

«1ª vez»


multidão, lisboa 1971, carlos calvet

obrigado. por seres. por fazeres. por estares. por criares. por completares.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

«apaixonado»

«sex object...aos 145 anos»



"i´m tired of you treating me as a sex object...i´m leaving you!!!!!"

«Hoje é o dia mais deprimente do ano» - blue monday...


o palhaço, 2001, paulo esteves

http://www.ionline.pt/conteudo/42430-hoje-e-o-dia-mais-deprimente-do-ano---aprenda-combate-lo

"Desde logo, é segunda-feira. Mau prenúncio. Depois, o Natal nunca esteve tão longe e o inverno tão agreste. Por esta altura, também já deve ter recebido as contas do mês, percebido que as resoluções de ano novo nunca serão cumpridas e que não se adivinham melhorias. Estes seis critérios, aplicados numa fórmula matemática, permitem concluir que hoje é o dia mais deprimente do ano. A conlusão é de Cliff Arnall, professor britânico da Universidade de Cardiff e especialista em saúde mental."

sábado, 16 de janeiro de 2010

«Rena»


s/ titulo, ana telhado

«wellcome»

9 outubro 2009



Oh happy birthday, happy birthday.
Little Lisa, today is your day.
Sing hallelujah, you know they blew ya'.
There are too many, candles in your cake.
But don't you worry, there's no hurry.
The Jehovas are standing by your door.
And they're offering, eternal suffering.
Eternal life, but you say no.
Turn on the radio, clean the windows.
Do it in slow-mo, as the day unfolds.
Oh how the sun shines inside you, just like I do.
These days are gold.
The nights are silver, they make you shiver.
Tomorrow the Jehovas will come by.
And they will ask you of and excuse.
Not to accept eternal life.

But I love you, yes I love you.
But I would never kiss your lips.
'Cause there's a friendship, a lovely kinship.
Here's a tulip to match your eyes.
Oh drinking cheap wine to bosanova.
You're a supernova in the sky.
The Jehovas, in their pull-overs.
Are no Casanovas, like you and I.
Oh happy birthday, happy birthday.
Happy birthday to you.
Oh happy birthday, happy birthday.
Happy birthday to you.
Happy birthday to you.
Oh happy birthday, little Lisa.
Happy birthday to you.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

«a data de 2009»


17 novembro de 2009

«banda sonora 2009»



We’ll stay inside til somebody finds us
do whatever the TV tells us
stay inside our rosy-minded fuzz for days

«inevitavelmente....»


para os «incultos»: "feofanya".

«nome do ano 2009»


FEOFANYA
picture by fio,

"quando olhas la para o fundo o que pensas?"
na imensidão que és...

«la fora»



kei gross

«Indústria alimentar vai restringir já este ano anúncios prejudiciais para crianças na TV»


ritual 2006, susana mendonça

http://www.publico.clix.pt/Media/restricao-de-anuncios-na-tv-para-criancas-comeca-este-ano_1417339

É PRECISO aligeirar esta obsessão legislativa de impedir a degenerescência humana – e, de uma vez por todas, aceitar. Aceitar o que somos e não somos. Os nossos pecados, as nossas divinas imperfeições. E permitir que os seres humanos conduzam as suas vidas com um mínimo de responsabilidade pessoal. Que possam chegar ao fim do caminho, olhar para trás e dizer: eu fui isto, eu sou isto. Por mim, para mim. A gula não é doença. É gula. Não é crime. É gula. É voragem pessoal, descontrolo gustativo, pura irresponsabilidade do palato.
O tabaco mata? A gordura mata? Mas a vida também é isto: uma sucessão de pequenas dificuldades e agressões que, em casos extremos, nos atiram para a cova. E que nenhuma varinha mágica pode resolver ou impedir. Se começamos a proibir o hambúrguer e a Coca-Cola, é lícito proibir tudo aquilo que provoca em nós tristeza, angústia e sofrimento

«falatório»

«da próxima vez que arranje uma tartaruga...das pequenas...»


«Canadiano morto por tigre "de estimação" »

in: http://www.ionline.pt/conteudo/41591-canadiano-morto-tigre-de-estimacao---video

«genius»

domingo, 10 de janeiro de 2010

«not literally»



O Zé nem disfarçava, a paixão já não cabia, quanto mais ela dançava mais o Zé enlouquecia

«adoro aquela parte em que dançam os "4cisnes" ao mesmo tempo»




nota: este espectaculo teve como extras: skittles, pontapes nas costas e uma espectacular encharcadela de senhor rabo...para dar mais realismo "à coisa".e mesmo assim foi excelente. por tua causa.

«espectaculo»


porto.08 janeiro 2010.

«the police are,kicking their way into my house»

Polícia da ASAE: tribunal volta a considerá-la inconstitucional
...e lentamente se redescobre...a polvora...



Ganglord, the police are
Kicking their way into my house
And haunting me, taunting me
Wanting me to break their laws


www.ionline.pt/conteudo/40859-policia-da-asae-tribunal-volta-considera-la-inconstitucional

...também no porto...

sábado, 9 de janeiro de 2010

«christian dior»



Christian Dior
You wasted your life
Sensually stroking the weaves of a sleeve.

You could have run wild
On the backstreets of Lyon or Marseille
Reckless and legless and stoned
Impregnating women
Or kissing mad street boys from Napoli
Who couldn't even spell the wrong name

site II




http://www.learnsomethingeveryday.co.uk/

«cisnes»

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

«e...continua a perseguição de sócrates à igreja católica...»



«Manoel de Oliveira escolhido para discursar perante o Papa no CCB»

http://ipsilon.publico.pt/Flash/texto.aspx?id=248323

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

«inevitavelmente a t-shirt do ano»

«provavelmente...video humoristico do ano...»

«a invenção do amor» (II)


fazer-se as pedras da calçada, luis azevedo


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares, à porta dos edifícios públicos, nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
...
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

de uma noticia de radio, num qualquer dia, em que nao teve qualquer importância, mas em que de repente...

A Invenção do Amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares, à porta dos edifícios públicos, nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou
A TV denúncia
iminente a captura
A policia de costumes avisada
procura as dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se, amaram-se, perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los, dominá-los, convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escola
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto
Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde: quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à policia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade,
o país, a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio, o habeas corpus, o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se, soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos
Água simples correndo
A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas
Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol, no silêncio das igrejas, nas boites com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa,
Será então aí
Engatilhem as armas, invadam a casa, disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar
Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados
Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída
A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer
Matai-o
Amigo irmão que seja
Matai-o
Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
Matai-o
Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza liquida
até ao fim da noite
Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas, salvo-condutos, horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade, do país, da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família, a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios
Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher, um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio, a espera conivente, o medo inexplicado
a vida igual a sempre, conversas de negócios
esperanças de emprego, contrabando de drogas, aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério, da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los
E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros, continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)

domingo, 3 de janeiro de 2010

«ensinam-nos os "pequenos ernestos"»

Ensinam os gatos
Miguel Esteves Cardoso



Todos os desgraçados que escrevem têm na manga uma ideia para ganhar muito dinheiro, se fosse preciso sacrificar a vaidade e os princípios - que acabam por ser a mesma coisa, se formos honestos. As mais desgraçadas destas ideias não são as comerciais e mirabolantes (como os cinemas de Joyce), mas as que se escrevem (como as publicidades de Pessoa e O"Neill). Também tenho uma. Chamar-se-ia Learning From Cats e defenderia a tese que, caso seguíssemos o exemplo dos gatos, seríamos tão infelizes e neuróticos como somos hoje, mas com muito, muito mais tempo para dormir.

O que espanta num gato é a maneira como combina a neurose, a desconfiança e o medo - para não falar numa ausência total de sentido de humor - com o talento para procurar e apreciar o conforto e, sobretudo, a capacidade para dormir 20 em cada 24 horas, sem a ajuda de benzodiazepinas. O gato é neurótico, mas brinca. Brinca com seriedade, mas brinca. Tem acessos, muito curtos, de loucura, em que se embandeira em saltinhos oblíquos. Mas, acima de tudo, descobriu o sistema binário da existência. Que é: dormir faz fome. Comer faz sono. Acordo porque tenho fome. Adormeço porque comi. Nos intervalos, faço as necessidades. Podem ser secundárias (cagar, amar, mijar, brincar, ansiar), mas são verdadeiramente necessárias. Se não tem sono, é porque tem fome. Se não tem fome, é porque tem sono. Se não tem uma coisa ou outra, é porque tem de fazer as necessidades.

É ou não uma lição de vida? Sim; é.

sábado, 2 de janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

«musicalmente, óbvio?»



All is quiet on New Year's Day.
A world in white gets underway.
I want to be with you, be with you night and day.
Nothing changes on New Year's Day.
On New Year's Day.

«propósitos»



http://moninavelarde.com/newyears/